Dizem que o trabalho dignifica o homem.
Talvez.
Mas que o trabalho escraviza o homem, também é verdade. Sobretudo nos tempos modernos em que cada vez a sociedade exige mais e mais de nós, em que nós próprios exigimos mais e mais de nós. Competimos com os outros e connosco mesmo. O trabalho precário, a afirmação pessoal, a especialização cada vez maior, a procura de melhores condições de vida fazem-nos, por vezes, esquecer os bens essenciais à nossa felicidade. Andamos stressados, num torvelinho de tarefas que aprazamos a nós próprios para ontem, que nos fecham os ouvidos e os olhos para os que estão à nossa volta, para as coisas simples que nos bastariam para sermos felizes.
Esquecemos os amigos, os filhos, a família, esquecemos os prazeres simples da vida, o "dolce fare niente". Cansamo-nos, esgotamo-nos a cumprir um rol de tarefas que julgamos sermos os únicos a poder satisfazer, não sabemos dividir tarefas, desacelarar porque nos julgamos imprescindíveis.
E, às vezes, surprendemo-nos a sermos felizes numa qualquer esquina da vida , numa fila de trânsito que, por acaso nos faz parar em frente ao mar, uma gaivota que nos roça a cabeça, uma criança que solta uma gargalhada. E, de repente, tomamos consciência do vazio e inutilidade da nossa correria e cai-nos em cima a teoria de Agostinho da Silva de que o homem não foi feito para trabalhar . E damos por nós a acreditar.
Damos por nós a temos vontade de atirar tudo ao ar e fugirmos. De caminharmos à beira mar, de telefonarmos a um amigo, de dizermos a alguém «amo-te», sem exigências nem compromisso, só pelo prazer de sentir o calor de alguém, porque há tanto tempo que não sentimos nem fazemos isso que, de repente, essa ausência nos doí fisicamente e é emergente como se não houvesse amanhã.