sábado, 25 de novembro de 2017

MEDITAÇÕES

Para ler com a 1ª música da barra lateral.

Sentada no meu alpendre, aproveitando uns raios de sol tardios, ouço os passarinhos, faço o meu tricot e medito.
Estes campos à minha volta, sentir o passar vagaroso do tempo, sem ansiedades do que há que fazer a seguir, são a minha paz e felicidades, o meu ponto de fuga.
A quem é que esta quinta interessa? Tirando o meu marido que comunga comigo deste estado de espírito, a ninguém.
Foi o sonho que construimos juntos e onde nos sentimos bem. A nossa " Tara".
Um dia em que já cá não estejamos, o sonho desvanece-se connosco.
E é normal que assim seja. 
Cada coisa tem o seu tempo e o seu encanto.
Podemo-nos considerar abençoados, dar graças a Deus,  por sermos dos poucos que conseguiram concretizar os sonhos, desfrutar deles e ser felizes.


Lembro-me de Quintanilha e da felicidade que os meus pais, na última dácada de vida, sentiam quando iam passar lá os três meses de Verão. Os dois. Sós. 
Os dias ronceiros de calor, as sestas, os passeios, as conversas ao fim da tarde, ao fresco.Era o ponto de fuga deles.
E quando os iamos visitar, tenho a certeza de que se sentiam felizes, que completávamos o seu bem estar mas que não ficariam demasiado tristes quando partiamos, porque recuperavam o seu sossego.

Já se tinha passado o mesmo com os meus avós. Os anos buliçosos do Porto, com o trabalho e afazeres da cidade eram equilibrados pelas férias que todos passavamos na aldeia.
Era eu criança, depois jovem, e os anos passavam com a regularidade sistemática da vida na cidade, com as férias que traziam um mês de praia e dois de campo.

Assola-me de repente a nostalgia deste passado que nunca mais viverei e as memórias desses tempos felizes...

Mas voltando aos meus avós, também eles se refugiaram em Quintanilha, já idosos, e construiram ali a sua felicidade e o seu sossego. 
Quando nos reuniamos todos era uma festa. As merendas, as idas para o rio, as noites passadas na conversa...
Ficávamos com pena ao partrir, de os deixar ali, na varanda, a dizer adeus, sózinhos. Mas, agora, olhando para trás, tenho a certeza que a tristeza era muito breve, e mais nossa, pois eles recuperavam a sua felicidade.

Devo estar a ficar velha para ter este tipo de pensamentos e vir agora com estas meditações.

Só espero que os meus filhos tenham a capacidade e possibilidade de concretizarem os seus sonhos e, seja onde for, encontrarem a sua " Tara " e serem felizes!




domingo, 15 de outubro de 2017

60 ANOS

Hoje para variar publico um foto atual, de hoje mesmo, porque 60 anos é um marco, uma data especial e merece ficar aqui....


Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

O valioso  tempo dos maduros - Mário Andrade

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SAUDADES

O meu pai faria hoje 85 anos se não tivesse morrido a semana passada.
Deixei aqui o testemunho de festas e alegria , em anos anteriores.
Hoje deixo o testemunho da minha saudade.


As Mãos do Meu Pai
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis 
sobre um fundo de manchas já cor de terra 
— como são belas as tuas mãos — 
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram 
na nobre cólera dos justos... 

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, 
essa beleza que se chama simplesmente vida. 
E, ao entardecer, quando elas repousam 
nos braços da tua cadeira predileta, 
uma luz parece vir de dentro delas... 

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, 
vieste alimentando na terrível solidão do mundo, 
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento? 
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, 
com o milagre das tuas mãos. 

E é, ainda, a vida 
que transfigura das tuas mãos nodosas... 
essa chama de vida — que transcende a própria vida... 
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma... 

Mário Quintana, in 'Esconderijos do Tempo' 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

NUNCA MAIS

A ti meu pai.


Nunca mais a força do teu abraço nos meus ombros carentes,
Nunca mais os teus beijos sonoros nas minhas faces,
Nunca mais a tua voz a chamar-me "fofinha" e lindinha,
Nunca mais o teu riso as tuas piadas bem dispostas,
Nunca mais as horas de conversa cúmplice,
Nunca mais o som dos teus passos a fazer eco no meu coração...

E o carácter tão definitivo deste "nunca mais" enrola-se em mim e pesa-me na alma.

Não há lágrimas capazes de chorar as dores mais fortes mas também não há morte capaz de quebrar estes laços!




terça-feira, 13 de junho de 2017

COMIDA FRESCA

O tempo está quente, abafado e húmido. Só apetece comer e beber coisas fresquinhas.
O jantar hoje é assim.


Salada de batata com salmão e camarões tigre da Mary Berry

 Embrulham-se três postas grandes de salmão temperado com limão, sal e pimenta, em papel de alumínio e vai ao forno 15 min.
Cozem-se as batatas novas com casca. 
Ao lado, numa taça faz-se o molho com 2 c.s. de mostarda, 2c.s. de azeite, 1 c.s. de vinagre branco, 1 c.s. de açucar. 
Escorrem-se as batatas, partem-se em quartos e misturam-se bem no molho, ainda quentes,  para que seja bem absorvido.
Junta-se aipo picado, rabanetes às rodelas finas, salsa ( eu também juntei ervilhas) e três c.s. de maionese.
Deita-se numa travessa.Tira-se a pele e lasca-se o salmão colocando-o por cima, ao centro. Enfeita-se com os camarões tigre, os meus eram normais mas grandinhos. Polvilha-se com salsa e já está.

sábado, 3 de junho de 2017

AQUI GOVERNA-SE UM

Continuo feliz a colher as coisas que plantei e semeei.
Hoje apanhei nos meus canteiros altos, mais espargos, rabanetes, alfaces, rúcula, curgetes enormes e tenras e pepinos.



Depois fui apanhar os frutos silvestres que estão em plena produção: framboesas, groselhas e cássis verdes, antes que a passarada os descubra e faça desaparecer.


A vida assim tem outro sabor.


domingo, 28 de maio de 2017

DE UMAS COISAS A OUTRAS

No final do mês passado fui passar uns dias ao Alentejo. Tempo bom, óptima companhia, comida boa e descanso. Os campos coloridos chamavam por nós a pedir que rebolássemos neles, as andorinhas chilreavam por todo o lado fazendo o ninho nos beirais das casas e era vê-las, à tardinha, em voos rasantes às nossas cabeças, como que a convidar-nos à brincadeira. 
Assim, trouxe comigo o colorido das flores e as andorinhas de louça para enfeitar a minha quinta e prolongar os dias felizes, são pequeninas e estão na parede.


Mudando de assunto...
A minha avó usava muito uma expressão « Aqui governa-se um», quando ia de férias para a aldeia. Citadina militante, não resistia aos encantos da pródiga natureza que, nos dias de estio, oferecia de tudo, qual supermercado bem fornecido. Ela e o meu avô nem precisavam de ir às compras porque a fruta e os legumes inundavam a casa e davam perfeitamente para os gastos dos dois.
É esta expressão que me surge a cada momento na minha cabeça quando começo a colher os legumes que plantei na minha horta e que tratei com as minhas mãos. 
Mandei fazer uns canteiros altos para não ter que andar debruçada sobre a terra e plantei um pouco de tudo, courgetes, alfaces, pimentos, batata doce, malaguetas, pepinos, rúcula, tomates, vagens, cebolas, abóboras para comer e decorativas, rabanetes, beringelas, etc... Esta foto é do início do processo, ainda não fotografei com tudo já a produzir.


Acreditem, quando ponho os meus legumes e saladas no prato, a comida tem outro sabor.
O sabor do meu trabalho e do meu amor.
E, como ao fim de semana somos  só eu e o maridão, "aqui governamo-nos os dois"!

                              

Salada da minha alface com omelete dos meus espargos e do meu estragão, os ovos são das minhas galinhas felizes.


 As minhas framboesas perfumadas e maduras que não têm nada a ver com as do supermercado, assim como os meus morangos e mais uma salada da minha alface com os meus rabanetes.
E que bem que sabe dizer os "meus", porque são fruto do meu trabalho...

quarta-feira, 12 de abril de 2017

WISTERIA

Não me perguntem como é que se passaram estes quatro meses sem vir por aqui escrever qualquer coisinha...
Acho que estive a hibernar este tempo todo, cumprindo as rotinas em piloto automático, numa letargia mental, a que todos temos direito, mas que não é muito normal em mim.

Está um tempo quentíssimo, inusitado para esta época, estou na minha quinta em férias e, como não se pode andar ao sol antes das seis da tarde, resolvi fazer alguma coisa útil, ao ar livre mas à sombra.
Instalei-me debaixo das minhas" Wisterias", a lixar e aplicar protector de madeira nas minhas mobílias exteriores, que depois do Inverno estavam a pedir ajuda.
Estou em paz, no leitor de CDs canta o Cat Stevens, Emerson Lake and Palmer, Shadows, Otis Redding e, talvez atraídos pela melodia, as árvores à volta encheram-se de passarinhos que rivalizam com eles em trinados desenfreados.


Talvez por isso ou pelas músicas da juventude, veio-me à memória uma carta do Samuel, que recebi há 43 anos atrás, em que me contava que, deitado ao sol no jardim do tio, no Brasil, ouvia Kim Crimson e que tudo à volta dele cantava. Cantava Kim Crimson , cantavam os passarinhos, cantava a natureza e cantava ele. Partiste muito cedo e nunca tive oportunidade de te agradecer a capacidade de sonhar que trouxeste á minha adolescência.

Não devo estar tão bem como tu estavas nessa altura, mas estou muito bem, num desses momentos "zen", em comunhão com tudo o que me rodeia!