segunda-feira, 22 de setembro de 2008

CORREIOS

Hoje em dia usamos pouco o correio.
Habituamo-nos aos meios de comunicação rápidos, no contacto e no consumo das emoções, que a tecnologia moderna nos proporciona e sentimo-nos estranhamente incomodados quando nos falta a net, o telefone, o telemóvel, a TV cabo, como se, de repente, ficassemos indefesos e orfãos.
Não estou a exagerar não!
Por menor ou maior período de tempo já todos passámos pela experiência e não foi agradável! Já não se lembram?
Aqui há tempos o meu marido aborreceu-se seriamente com a empresa que nos fornecia a TV, telefone e net. Mudámos de empresa, só que estivemos quase um mês sem nada. Pareciamos zombies cá em casa... No auge da experiência, em que já só nos dava para rir, os meus filhos só diziam porque é que não acendiamos umas velas e fingiamos estar na pré-história (exagerados) !

Isto tudo para dizer que guardo viva na memória, a recordação dos meus tenros anos, do mês de férias passado na aldeia, lá para bem de trás-os-montes.
Tão lá atrás do tempo e dos montes que o correio chegava de burro trazido por uma mulher formidável, gorda ruiva e sardenta, já com os seus 50 e tal anos. Atravessava montes e vales, rios e ribeiros, 5 a 6 horas desde a cidade, e percorrendo as aldeias daquele lado do mundo. Chegava montada de lado, naquele burrito que parecia pequeno demais para tanta mulher e tanto saco, risonha, sempre bem disposta, fizesse sol ou chuva. Era recebida pelos habitantes da aldeia que esperavam ansiosamente a sua chegada, invariavelmente, no meio de piadas e palmas, sempre com o mesmo trocadilho tão gasto « correi-o, correi-o à lapada» mas que, ainda assim, arrancava sempre os mesmos sorrisos.
E enquanto a "tia Manulica", assim se chamava a mulher, desmontava e descarregava o pesado saco cinzento de tecido grosso e áspero, fechado por um cinto de couro que encaixava numa fechadura metálica, selada, todos se precipitavam para o sótão.
O sótão era uma mercearia incrível, tipo vende tudo, de balcões de madeira corridos e que só abria àquela hora para receber o correio. Mal a porta se abria, as pessoas corriam para guardar os lugares da frente, encostados ao balcão, donde poderiam ver e ouvir melhor a" menina Virginia" com a chave acobreada romper o selo de segurança e abrir o saco. Vê-la, exasperadamente lenta, no meio de um silêncio religioso, fazer molhinhos de cartas e preencher o formulário e, só depois, como se isso lhe tivesse dado imenso prazer, na sua vozinha aflautada chamar os destinatários das ansiadas cartas.
E era vê-los alegres uns, desapontados outros, esperarem que o saco fosse sacudido e virado do avesso, para regressarem às suas vidas no campo.

Porque é que isto tudo veio tão nítido à minha memória, neste dia cinzentão, começo de Outono?
É que ultimamente tenho recebido imensas encomendas, dos quatro cantos do mundo, todos carregados de surpresas e coisas que me têm feito muito feliz.
De pessoas que perderam tempo a pensar em mim!
Amorosamente prepararam embrulhinhos, escreveram bilhetinhos, perderam tempo a ir ao correio,a pensar na alegria que eu ia ter ao recebê-los.
E isso,... não há tecnologia moderna que substitua!


Hoje recebi, no correio, a encomenda de tecidos que fiz na loja da noussnouss. Não são lindos? Vamos ver o que vou fazer com eles!

3 comentários:

sandra disse...

O texto é delicioso... Há momentos que nos marcam para sempre...
Obrigada pelo prémio!

ameixa seca disse...

Minha querida, ninguém no seu perfeito juízo perde tempo a pensar em ti. Ganhamos uma positividade incrível quando sabemos que vamos chegar às mãos de alguém através do correio. Eu ainda adoro as cartas manuscritas e as encomendas. Aqui na minha aldeia, a chegada do correio ainda é vivida com entusiasmo. Pelo menos eu vivo-o assim ;)

Noémia disse...

Obrigada, Sandra é verdade que a infância nos marca bastante.
Ameixinha, as tuas palavras enchem-me de alegria. Sorte a tua seres dos privilegiados que apreciam o correio e ainda vivem esse ritual.:)