segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A MONTANHA DA ALMA

Nada melhor do que celebrar a postagem nº 100, no 1º de Setembro, fim de férias, com um comentário literário para a Academia dos Livros.

Hoje em dia quando falamos da China temos duas abordagens possíveis e imediatas. Uma, é o nosso pensamento viajar no tempo e virem-nos à memória imagens de uma cultura milenar onde imperadores, porcelana de mil e uma cores, pagodes, paisagens que rompem os vapores das nuvens, sedas e concubinas são só pormenores de uma longa lista.
A outra abordagem é a de nos saltarem à ideia as incontáveis lojas de vende tudo, que povoam o nosso país, e o sentido pejorativo de “compraste no chinês?”.

Parece que falamos de dois países diferentes e debatemo-nos entre sentimentos opostos.

Num tempo em que os jogos olímpicos estão, ainda, tão na ordem do dia e que nos mostraram uma China poderosa, que se esmerou por mostrar ao mundo as suas grandes capacidades, não só na organização do evento como também nos atletas medalhados ( um em cada modalidade, pelo menos) acho que vem a propósito falar de Gao Xingjian.

Gao Xingjian nasceu na China em 1940, vive em França desde 1988, é romancista, pintor, dramaturgo, encenador, crítico literário, poeta e o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto da sua obra em 2000.

Eu li, há já algum tempo, a Montanha da Alma que é um livro seu, de 546 páginas, e onde todas as características do autor, acima mencionadas, se revelam magistralmente.


Adorei lê-lo, saborei frases e passagens, tocou-me a alma, por isso vos falo dele!

O eu narrador que nos conta a sua viagem através do país profundo, à procura da Montanha da Alma, local mítico e incerto no mapa da China, vai-nos mostrando, com nostalgia, um país desconhecido, ancestral, intocado e puro ( também duro e pobre) que contrasta com um país burocrata, espartilhado, injusto e cego pela revolução maoísta, que, por sua vez, choca com as metrópoles modernas, industriais e capitalistas, onde pululam jovens ocidentalizados e incaracterísticos.

Somos confrontados com três épocas marcadas por ideologias diferentes cujas alterações profundas na sociedade traçam destinos, muitas vezes preversos, em algumas das pessoas que se cruzam com o autor e noutras deixam-nas cristalizadas como se não tivesse havido revolução ( evolução? ). Surge-nos um país pintado como um quadro, de fortes contrastes.

Não é um livro fácil com uma qualquer história que é contada. Não há uma história, há histórias que se vão contando, de ele ou ela que se cruzam com o narrador. As mulheres mais castigadas, sofridas, numa sociedade preconceituosa.

É díficil explicar as emoções que esta narrativa desperta, a poesia que destila na descrição de paisagens ou dos sentimentos, a delicadeza e o pudor das relações humanas ou religiosas (budista e taoísta essencialmente) .

« E é assim que uma paisagem vulgar a que não se presta a mínima atenção deixa no intímo uma impressão profunda. Em mim, faz nascer subitamente uma espécie de desejo, uma vontade de entrar nela, de entrar nessa paisagem de neve, não ser mais que uma silhueta, uma silhueta que obviamente não teria quarquer sentido se não estivesse a comtemplá-la da janela. O céu sombrio, o chão coberto de neve ainda mais brilhante em contraste com este céu sombrio, já não há melros, já não há pardais, a neve absorveu qualquer ideia e qualquer sentido. »

« Este "eu" no meio do tu não é senão um reflexo no espelho, a imagem invertida das flores na água; se não entrares no espelho, não conseguirás apanhar o que quer que seja e só terás piedade de ti próprio em pura perda. »

E depois como num texto dramático, em que alternam as personagens “ela diz, tu dizes” mas sempre com a poesia nas palavras:

« Tu dizes que acabas de sonhar, adormecido sobre ela. Ela diz que é verdade, há um momento ela falava contigo, tu não dormias, ela diz que te acariciava e enquanto tu sonhavas, ela tocou o teu pulso, apenas há um minuto. Dizes que é verdade, tudo era ainda distinto, sentias a doçura dos seus seios, a respiração do seu ventre. Ela diz que te abraçava, que te tocou o teu pulso. Dizes que viste erguer-se a superfície negra do mar,a superfície perfeitamente plana, levantou-se lenta e inexoravelmente.Comprimida, a linha entre o céu e o mar desapareceu e a superfície negra ocupou todo o espaço. Ela diz que dormiste colado ao seu peito. Dizes que sentiste os seus seios a crescer como uma maré negra, que o fluxo era como um desejo que aumenta, cada vez mais forte; quando ela ia engolir-te, dizes que sentiste uma espécie de inquietação. Ela diz: estavas sobre o meu peito como uma criança tranquila(...)»

A Viagem à procura da Montanha da Alma é como a demanda do Santo Graal. Uma viagem interior à procura da beleza, da pureza, do conhecimento, de si mesmo... E percebemos claramente isso quando, ao longo da leitura, sentimos que estamos nós próprios à procura de qualquer coisa, ... de nós mesmos.

Essa escalada à montanha, aos cinco mil metros, de altura ou profundidade na própria mente, é acompanhada da incapacidade das palavras, da mistura onírica da realidade, ou como diz Noel Dutrait no prólogo, “evocação da realidade absurda ou kafkiana contemporânea”.
E o livro termina:

« Fingir compreender, mas de facto, não compreender nada.
Na realidade, não compreendo nada, estritamente nada.
É assim.»

Há livros que não se explicam, leêm-se!

3 comentários:

ameixa seca disse...

Ora muitos parabéns pelo centésimo post :)
Bem comemorado pois claro! Porque este blog também se lê e bem ;) Bo semana!

Noémia disse...

Obrigada, ameixinha, pelos elogios. Foste tu que me lançaste nesta aventura!

sandra disse...

Parabéns pelo centésimo post. Ainda não li o livro que comentas mas fiquei com vontade de fazê-lo!