A maioria de nós tem suas próprias tristezas, sonhos partidos e corações feridos, cada um viveu perdas únicas, nossa própria "cabana".
Oferece uma das visões mais pungentes de Deus e de como ele se relaciona com a humanidade.
A maioria de nós tem suas próprias tristezas, sonhos partidos e corações feridos, cada um viveu perdas únicas, nossa própria "cabana".
Oferece uma das visões mais pungentes de Deus e de como ele se relaciona com a humanidade.
Talvez influenciada pela melancolia do tempo veio-me à memória um texto que eu achei belíssimo na altura que o li, há já um bom par de anos e que compartilho agora convosco. Leiam-no devagar, parem mesmo nos pontos e façam pausas grandes nas vírgulas. Saboreiem como se fosse um rebuçado...
« Seguiam pelo passeio de mãos dadas. Talvez o vento ligeiro que se levantou os molhasse ainda mais. Quando os atingia a chuva transformava-se em flores, como é de uso acontecer ao pão, nos milagres. Ou, como as flores continuam caras, talvez a chuva se limitasse a uma carícia, considerando tudo mais desnecessário.
Certo, certo, é que a chuva lhes ensopava o cabelo e que havia que, com a manga do casaco, ou simplesmente com os dedos, ir suavemente aceitando os pingos que lhes desciam pelo nariz.
Eles. Eles são eles. Eles são o príncipio de tudo o resto, sim, o resto é quase o fim do dia, a chuva farta e mansa, os autocarros embaciados, as pessoas apressadas ou abrigadas, resignadas, submissas, debaixo dos toldos.
Eles. Eles têm catorze anos, vão devagar como qualquer eternidade que se preze e tudo o mais de espanto é ficar a vê-los pelo passeio fora, de mãos dadas,enquanto a chuva cai, cai, cai.
Enquanto a noite se vai infiltrando por tudo o que é cidade.
Enquanto Lisboa se vai acomodando para a hibernação de todos os silêncios.
De súbito um carro pára diante deles, no outro lado da rua. Um vulto feminino desce, cobre a cabeça com a mão direita, acena com a outra:
- Eh pessoal! Querem boleia?
Eles estacam. Num acto instintivo de protecção Júlia põe-se à frente do rapaz.
- A professora Zília! - exclamam ao mesmo tempo.
-Não querem vir?
- Não vale a pena.
- Mas está a chover muito!
- Isto não é nada já passa. - grita o João.
- Vejam lá. Está tudo bem? Não há novidade?
- Tudo bem, professora, tudo bem.
Zília fica a vê-los afastarem-se, pararem na luz da paragem do autocarro, abraçarem-se num beijo, num beijo, num beijo.
Completamente ensopada, Zília entra no carro.
- O que é que tens? - pergunta-lhe o companheiro.
- Não sei - diz ela - Não sei. Mas parece que estou feliz. »
Este excerto é do livro « o caso da rua Jau », de Mário Castrim.
Mário Castrim (pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca) nasceu em Ílhavo, em 1920, e morreu em Lisboa, em Outubro de 2002. Era casado com a também escritora e jornalista Alice Vieira e pai da jornalista e escritora Catarina Fonseca.
Professor, escritor e jornalista, fez crítica de televisão diária, desde 1965, no Diário de Lisboa. Depois do encerramento deste jornal, em 1990, passou a assinar a crítica de televisão no semanário Tal & Qual. Em 1963 criou, com Augusto da Costa Dias, o Diário de Lisboa – Juvenil, que sempre considerou a sua obra mais importante. Escreveu no jornal Avante! e, nos últimos dez anos da sua vida, trabalhou na revista Audácia, dos Missionários Combonianos.

Mais do que divulgar um livro ou o seu autor , trago-vos a minha visão sobre o que li, a forma como o senti e as palavras que são minhas.
A história passa-se em Goa no séc. XVI e retrata magistralmente uma época em que o colonialismo português aliado à inquisição devastam a sociedade indiana e judaica.
A história marca-nos pelo que podia ter sido e não foi. Como às vezes um pequeno nada, modifica a nossa vida , ou dá cabo dela.
Tiago e Sofia, apesar de orfãos de mãe, vivem uma infância feliz e acabam de ser criados pelo pai judeu e por Nupi, a ama indiana, numa harmonia de cultura e ensinamentos, rituais e festas.
No entanto,Sofia, loura e de pele clara, sofre com a sua mistura europeia e indiana, e vai fazer de tudo para renegar esta sua ascendência. Seduzida pela esposa portuguesa e católica, do Tio Isacc, toma as rédeas do seu próprio destino decidindo casar com o seu primo Wadi e marca o destino dos outros, mas isso só o vamos descobrindo aos poucos.
Até aqui a história é-nos narrada em retrospectiva, vista pelos olhos de Tiago que recorda esta infância feliz enquanto apodrece nos calabouços da Inquisição. Recorda também a prisão do pai, traído por alguém que roubara um manuscrito judeu do seu bisavô e o entregara. A tortura a que o pai foi sujeito, a tentativa de suborno para o libertar e finalmente a morte por envenenamento que ele próprio facultou ao pai.
Após a morte do pai, quando Tiago tenta recuperar o seu filho e a noiva, é preso também ele e, durante seis anos, cumpre pena em Lisboa. Tem raciocínios e conclusões espantosas sobre o que o rodeia e perde a sua ingenuidade e bondade natural ao ver as atrocidades cometidas em nome da fé. Aí começa a delinear e a tecer a vingança contra o Padre Carlos e quando o consegue descobre que « após um curto e luminoso momento de êxtase, perdeu o ânimo».
Quando regressa ao seu país as coisas já não são iguais, Sofia morrera e ele culpa o primo. Tudo se precipita, à procura de quem o traíra a si e ao pai, vai de descoberta em descoberta. Tiago enreda-se numa vingança sem retorno, sem futuro nem para ele nem para ninguém. É Nupi quem lhe revela toda a verdade, ali, tão evidente e que ele sempre se recusou ver...
Apesar da realidade dura das prisões e calabouços portugueses, da injustiça de uma inquisição que tortura inocentes, das vidas despedaçadas, dos destinos adulterados, li o livro sem angústia, sem revolta, sem o incómodo da impotência ou da dor. A narrativa é tão serena, as coisas fluem tão naturalmente, a inevitabilidade dos factos é vivida numa simbiose tal que nos sentimos serenamente presos nesta trama, com vontade de descobrir o final.
Como diz a contra capa, Zimler dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.
Não deixem de o ler!